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quarta-feira, 20 de julho de 2011

Freud e o homem dos ratos

FREUD E O HOMEM DOS RATOS
Síntese Freud tratou e comentários de Renata Oliveira
um jovem cujo trabalho foi publicado como "Homem dos Ratos" (1909) (Vol. X da Coleção das Obras Completas de Freud daEditora Imago . Freud procurou formular, a partir do estudo do caso, uma explicação sobre a neurose obsessivo-compulsiva à luz da teoria psico-sexual do desenvolvimento. Para tanto, realizou uma descrição rica e precisa de rituais e obsessões que seu paciente apresentava, buscando interpretá-los à luz de sua teoria. Tal concepção prevaleceu até pouco tempo atrás, quando novos fatos vieram modificar essas concepções.

O paciente, um jovem de educação universitária, apresentou-se a Freud com a queixa de obsessões desde sua infância, mas com uma maior intensidade nos últimos 4 anos de sua vida. Sofria de TEMORES de que algo acontecesse a duas pessoas de quem mais gostava - seu pai e uma jovem a quem admirava. Além disso, tinha consciência de IMPULSOS COMPULSIVOS - tais como, por exemplo, de cortar sua garganta com uma navalha -, produzindo posteriormente PROIBIÇÕES, muitas vezes em conexão com coisas triviais, como no dia em que a jovem de quem gostava ia partir, e ele bateu com o pé numa pedra da estrada em que caminhava, e foi obrigado a afastá-la do caminho, pondo-a à beira da estrada, pois lhe veio a idéia de que o carro dela iria passar e poderia acidentar-se nessa pedra. Contudo, minutos depois pensou que era um absurdo, e foi obrigado a voltar e recolocar a pedra à sua posição original.

A experiência que precipitou a primeira consulta do paciente com Freud ocorreu quando estava em manobras em uma unidade militar. Um oficial descreveu uma forma de tortura na qual o prisioneiro ficava sentado nú, amarrado sobre um recipiente contendo ratos, que buscavam escavar seu ânus em busca de uma saída. Tal pensamento passou a invadir sua mente sem que fosse capaz de evitá-lo, causando-lhe grande aflição. Achava que isso poderia acontecer com a jovem de quem gostava e com o pai, já falecido há 9 anos. Como forma de evitar essa obsessão, empregava uma fórmula particular, dizendo a si mesmo: "Mas", acompanhado por um gesto de repúdio, e depois: "O que é que você está pensando?"

O jovem passou anos combatendo essas e outras idéias, conforme relatou, perdendo, deste modo, muito tempo de sua vida. Vários tratamentos haviam sido tentados, com nenhum efeito positivo.

A análise de Freud concentrou-se na ambivalência do paciente para com seu pai e a jovem a quem cortejava, originada em sua sexualidade precoce e intensa e sentimentos antigos de raiva contra seu pai - que haviam sido severamente reprimidos. O símbolo do rato levou Freud e o paciente a uma série de associações que incluíam erotismo anal, lembranças de excitações anais quando o paciente em criança eliminava lombrigas (que Freud interpretava como simbolizando um pênis), e o fato de ter sido espancado pelo pai aos 4 anos de idade por ter mordido uma pessoa. Associou ainda com problemas antigos do pai do paciente com o jogo (em alemão, um jogador é uma spielratte - ou rato-do-jogo), a idéia infantil do parto anal e a própria experiência real de haver tido verminose quando criança. Após um ano de análise, o paciente curou-se de seus sintomas e, nas palavras de Freud, "o delírio dos ratos desapareceu".

Comentários

De uma forma muito rica e detalhada Freud descreveu os sintomas do transtorno obsessivo-compulsivo (até bem pouco: neurose obsessivo-compulsiva): obsesões e compulsões, rituais de asnulação, que procurou interpretar à luz de seu modelo psicosexual do desenvolvimento. Particularmente são ricas suas descrições sobre a forma de pensar do paciente obsessivo-compulsivo modernamente retomadas e valorizadas pelas teorias cognitivas do TOC: a importância exagerada do pensamento, a dificuldade de conviver com a incerteza, a necessidade do controle, o perfeccionismo, o responsabilidade exagerada. Freud destacou ainda o isolamento dos afetos em relação às idéias, a ambivalência, a anulação, o Superego severo, como fenômenos associados ao TOC, e em função dos sintomas do seu paciente supervalorizou os sintomas relacionados com ânus, fezes, defecação e sadismo, que no seu entender apoiavam sua teoria.
O Homem dos Ratos é um exemplo de um lado da genial capacidade de Freud para captar e descrever fenômenos clínicos, e ao mesmo tempo de viezes nos quais incorria em função de suas próprias teorias. De qualquer forma sua descrição detalhada e sua interpretação elegante à luz de suas próprias idéias, prevaleceram por quase um século como a teoria sobre a origem do transtono obsessivo-compulsivo, embora fossem de pouca utilidade no seu tratamento.
Atualmente, o transtorno obsessivo-compulsivo é visto como um transtorno neuropsiquiátrico, para cuja origem concorrem fatores de ordem biológica, como vulnerabilidade genética, disfunção neuroquímica cerebral, o ambiente familiar em que foi educado. Tem sido também muito valorizada a relação funcional entre obsessões e compulsões, ou seja o fato de o paciente descobrir (aprender) que os rituais aliviam a ansiedade associada às obsessões e passa por este motivo a repetí-los. Tem sido também destacadas determinadas crenças errôneas que auxiliam na manutenção da doença: como a avaliação irreal do risco, a importância exagerada que estes pacientes dão aos seus pensamentos, o perfeccionismo, e necessidade de ter controle e certeza entre outros. Seu tratamento, em função desses novos fatos, passou a ser a farmacoterapia associada à terapia cognitivo-comportamental, e não mais a psicanálise.
Breve análise sobre o caso do “Homem dos Ratos”
Em outubro de 1907, Freud começa a análise do paciente que vem a ser chamado de “O Homem dos Ratos“. Ele vem ao seu encontro por diversos problemas, principalmente por sintomas obsessivos. A saber, ele é obcecado pelo pensamento de que acontecerá alguma coisa de desagradável, alguma coisa de dolorosa, às duas pessoas que ele ama - seu pai e uma dama. Freud observa isso bem, principalmente nas notas que existem correspondentes aos três primeiros meses e vinte dias, até o dia 20 de janeiro de 1908, naquilo que Freud chama “diário de uma análise”, onde ele, todas as noites, anotava o que era dito em cada sessão.
“O Homem dos ratos” é um caso de neurose obsessiva clássico, atendido por Freud, no qual, embora se possa encontrar temas imaginários comuns aos casos de neurose obsessiva, nota-se também uma particularidade bastante evidente. O fantasma ou argumento imaginário que levou o paciente a procurar análise foi o impacto causado pela narração de um tipo de tortura provocado pela penetração de ratos no reto de um indivíduo. Este fantasma não desencadeia a sua neurose, mas suscita a angústia, além de apontar para algo que pode ser encontrado em vários temas trazidos por este paciente. Logo, falar sobre ele me parece fundamental para discorrer a respeito do determinismo da neurose deste paciente, sem esquecer cada caso deve ser estudado na sua particularidade.
Sobre a história de vida do paciente
Sua pré-história ou as relações familiares fundamentais que estruturaram a união de seus pais tinha uma relação precisa, mas transformada, com o estado imaginário em que ele se encontrava, estado este que funcionava como uma resposta à angústia que desencadeou sua crise. Quanto a isto, o paciente descrevia seu pai como simpático e informou que ele havia sido suboficial do exército, o que lhe fez permanecer com certo tom de autoridade e ostentação, embora fosse desvalorizado entre os seus contemporâneos. Contou também que seu pai fizera um casamento por conveniência com sua mãe, que era mais rica do que ele, o que coloca o prestígio na relação conjugal com a mãe.
Por outro lado, a sua mãe costumava brincar com seu pai referindo-se a uma moça pobre e bela por quem ele parecia ter sido apaixonado antes de se casar. O marido protestava dizendo ter sido algo sem importância. Embora a repetição deste jogo mostre a possibilidade de uma parte de artifício ou fantasia por parte da mãe, isto não importa, pois o importante é que este jogo que referia à mulher pobre amada pelo pai impressionou profundamente o paciente. Ainda em relação ao pai, é preciso ressaltar um momento de sua vida considerado na família como importante e significativo. Quando era suboficial, ele perdeu no jogo todo o dinheiro do regimento a ele confiado. Um de seus amigos, contudo, emprestou-lhe o dinheiro para o pagamento da dívida, o que manteve sua imagem social, mas não a honra em sua carreira. Este amigo bondoso nunca mais foi encontrado, o que impediu que a dívida para com ele fosse paga. Esta figura do amigo que não foi reembolsado também causou grave desconforto no paciente.
Notas para uma análise
Apesar de o paciente narrar sua constituição familiar, ele não a relaciona com a sua atualidade, assim como afirma que não sabe por que está dizendo aquilo, já que não tem relação nenhuma com o que lhe vinha acontecendo. Para Freud, há relação entre a narrativa sobre a constituição familiar e o que levou este paciente a procurar análise.
Um fato importante da história clínica do “homem dos ratos” é que o conflito mulher rica/mulher pobre presente em sua história familiar reproduziu-se em sua vida no momento em que seu pai quis que ele se casasse com uma mulher rica. Isso, mais uma vez, aponta para o desenvolvimento da obsessão fantasmática que o levou a procurar tratamento com Freud. Esta obsessão caracterizava-se por um medo de que a tortura dos ratos fosse aplicada às pessoas que lhe eram queridas de alguma forma. Estas pessoas eram, especificamente, uma empregada a quem dedicava um amor idealizado e com quem havia se envolvido pouco antes de o pai impeli-lo a casar com a mulher rica, e o pai que, na época do início da análise, já havia falecido. Observa-se aqui o retorno de dois elementos da constelação familiar do sujeito: a mulher pobre, encarnada na empregada, e o pai, um pai imaginado no além depois de morto.
Além de sofrer por causa deste perigo fantasmático que ameaçava quem ele amava, o paciente encontrava-se, na época em que procurou Freud, em outra situação que o angustiava por demais: havia participado recentemente de manobras militares e foi nesta ocasião que um capitão com gostos cruéis havia lhe contado sobre o suplício dos ratos. Nesta mesma ocasião, ele perdeu seus óculos e os encomendou a seu oculista, o qual os enviou pelo correio. Este mesmo capitão disse-lhe, então, que ele deveria enviar o dinheiro do pagamento dos óculos para reembolsar o tenente “A”, que os havia pago por ele. Após um impulso inicial de não pagar, a questão do reembolso ao tenente “A” impôs-se de uma forma imperativa para o paciente, como um juramento. Contudo, o paciente notou que o capitão devia ter se enganado porque era o tenente “B” o responsável pelos assuntos de correio, não o tenente “A”. Descobriu, posteriormente, que era a uma senhora que trabalhava no correio que ele deveria reembolsar a soma.
O paciente chegou ao consultório de Freud em um estado de angústia máxima, pois, como jurou inicialmente reembolsar o dinheiro ao tenente “A” (uma defesa ao impulso de não pagar), pensa que, se não o fizesse, algo ruim poderia acontecer às pessoas que ele amava, mais especificamente, a tortura dos ratos seria aplicada à mulher desejada e ao pai morto. Sua obsessão o levou a montar o seguinte esquema para resolver o impasse da devolução do dinheiro: ele deveria enviá-lo ao tenente “A”, que o entregaria para a senhora do correio, a qual, na frente do tenente “A”, o entregaria ao tenente “B”, que, por fim, o devolveria ao tenente “A”.
O esquema montado para a devolução do dinheiro aponta para seu mito individual. Este esquema é equivalente, com algumas transformações, à situação originária do mito familiar do paciente que envolve, basicamente, a mulher rica/mulher pobre e o pai devedor/amigo salvador. Este quarteto determinará as relações do paciente com as outras pessoas, pois estas ocuparão de maneira transformada uma destas quatro posições possíveis. É isto que caracteriza o neurótico: ele retoma em suas relações e/ou produções esta estrutura básica que advém da constelação familiar e é por ele transformada. O que dá o caráter mítico a este cenário fantasmático é o fato de esta apreensão modificar, no sentido de uma certa tendência, a relação inaugural.
Os sintomas no caso “O Homem dos ratos”
A leitura de casos clínicos de Freud auxilia a compreensão de determinadas formações de sintoma. Na obra “Homem dos Ratos” Freud relata um caso de neurose obsessiva. Além da dificuldade de tratar de um assunto próximo de um sintoma pessoal, existe outra peculiaridade apontada por Freud, ao comparar a neurose obsessiva com a histeria. De forma contrária ao que pudesse parecer, a dificuldade de compreensão do discurso do neurótico obsessivo ocorre justamente porque “se refere com mais proximidade às formas de expressão adotadas pelo nosso pensamento consciente do que a linguagem da histeria” (Freud, 1909, p. 160). De forma diferente da histeria, em que o sintoma assume uma forma muitas vezes corporal, o sintoma na neurose obsessiva adota a forma de raciocínio, mesmo que seja supersticioso ou mágico.
Nessa obra é relatado um caso de um homem que busca tratamento com a queixa de possuir idéias obsessivas que lhe geravam medo de que algo pudesse acontecer com seu pai ou com uma mulher a quem admirava. Esses tipos de idéias lhe ocorriam desde a infância, mas foram intensificadas nos últimos anos. Foram relatadas idéias que estabeleciam conexões com coisas sem importância, e isso gerava ansiedade no paciente.
A idéia dessas conexões sem muito sentido corroboram a hipótese de neurose obsessiva, pois o retorno do recalcado ocorre freqüentemente naqueles elementos que estabelecem a ligação entre as palavras. O sintoma se estabelece dessa maneira porque “o recalcamento nesta neurose recai sobre as conexões entre os eventos” (Froemming, 1994, p.5). A existência dessas falsas conexões, conforme denominou Freud, demonstra a ineficácia dos processos lógicos para combater a idéia atormentadora. O trabalho da escuta analítica desse caso pode estar na busca das conexões perdidas, a fim de recolocá-las em um sentido possível para o paciente, em que o afeto não esteja ausente.
Freud acredita que a localização da origem dessa neurose encontra-se na vida sexual infantil do paciente. Em casos de neurose obsessiva, é freqüente encontrar novos pontos de origem da doença durante a investigação psicanalítica, cada vez mais cedo. No paciente do texto, é possível identificar no relato de sua infância crenças de que algo ruim aconteceria a seu pai. Diante dessa crença de que algo ruim aconteceria, há um esforço por cumprir algumas promessas obsessivas a fim de impedir essa punição. Freud (1909) estrutura esse conflito como uma pulsão “erótica e uma revolta contra ela; um desejo que ainda não se tornou compulsivo e, lutando contra ele, um medo já compulsivo” (p.147). Quando transformados em atos, muitas vezes se traduzem em ações sucessivas, em que a segunda visa a neutralizar a primeira.
Como qualquer formação de sintoma, há um ganho secundário da doença. É através do sintoma que o eu se manifesta, para quem também atua como forma de defesa. Na neurose obsessiva, a ação do deslocamento permite que o afeto ligado a algumas situações seja deslocado para outras. Por um lado, há uma ansiedade exagerada ligada a situações sem maior importância, para as quais foi deslocado o afeto. No entanto, por outro lado, o neurótico obsessivo consegue lidar com outra área (possivelmente relacionada a algum conteúdo sexual) sem o afeto que deveria ter, o que lhe permite realizar algumas coisas que não faria se o afeto ainda permanecesse ligado a elas. Nesse texto de Freud é relatado um caso de um senhor que possuía muita precaução ao tratar com questões de dinheiro, a qual não demonstrava quando se referia a situações sexuais.
A forma como o paciente chegou a Freud indica características da neurose obsessiva. O paciente relatou a Freud histórias de conteúdo sexual, pois teve conhecimento anteriormente que Freud trabalhava com essa questão. Sua fala passa, então, a ser endereçada para o outro, supondo o que o outro gostaria de ouvir. O paciente pedia que alguém confirmasse uma dívida impossível de ser paga, assim como seu desejo, que estava colocado como algo impossível. Essa posição de não reconhecer seu próprio desejo, dado que ele é impossível, faz com que o neurótico obsessivo busque em fontes externas as motivações para suas ações. O destino e a fatalidade acabam tomando um papel muito marcante em sua vida, em decorrência de sua desistência de desejar.
Ao realizar sua análise, foi possível romper com o impedimento que o colocava aquém das frustrações de se ter um desejo, assim como dos benefícios de correr atrás de um desejo. Ao lidar com a questão da dívida com o pai, e superá-la, o paciente pôde sair da condição de ter que ser como seu pai. Essa dívida o inseria na linhagem paterna, mas também o deixava exposto às mesmas frustrações pelas quais seu pai passou, da dívida (no jogo) e da dúvida (com quem casar).
O mal-estar do homem dos ratos (ensaio baseado nos textos O mal-estar na civilização e O homem dos ratos, de Sigmund Freud)

Por Maria Truccolo
Há no título "O mal-estar na civilização" uma sutileza que o diferencia de "O mal-estar da civilização", como dizem alguns - e me fazem arrepiar. Entre o "na"-"da" há uma variação semântica que distancia as duas sentenças. O mal-estar na civilização sugere que a adesão à subjetividade que faz do selvagem um ser humano, assim denominado pela "civilização", é a causa do sofrimento contraposto ao natural (versus o cultural) no sentido de natureza instintual pura e simples. Este "mal-estar na" remete à transitoriedade: o sujeito tem escolha entre a adesão à doença (neurose civilizatória) ou a busca da sanidade, via ponderação do que é seu e o que é do outro - individuação em Jung?
O "mal-estar da" induz ao ser, ou seja, o sujeito se sente mal porque "é" assim, não se constitui pelo seu próprio saber, é instituído pelo conhecimento, como se ao nascer tivesse vindo com um chip de regras e normas inviolável, imutável. O "estar na", transitório, remete à possibilidade da recriação do sujeito (que "está" na civilização e não "é" a civilização), ao reconhecer sua singularidade e a partir daí pensar-se como ser único, relativizando a dependência do que lhe propõe/impõe a civilização. Fazendo dela mais ou menos opressora sobre si e modulando seu mal ou bem-estar dentro do conjunto civilização.
E, por mencionar conjunto, uma coisa que me intriga muito na teoria dos conjuntos é o conceito de conjunto vazio, por me parecer um paradoxo: junto com vazio; junto com, mas vazio; junto com: vazio. Será que este vazio evidente, mesmo estando junto com (civilização), acena com a possibilidade da busca, elaboração, de algo? Da singularidade, por exemplo? Assim, imagino, é possível separar, resgatar e conter o que é meu, escolhendo preencher ou não com objetos bons ou maus a parte que me cabe nesse conjunto, mantê-lo vazio de bem e de mal ou fazer a mediação no preenchimento da parte que me cabe, para que eu me sinta menos mal na civilização.
Há perguntas simples, na clínica, capazes de abalar convicções: pra quê? por quê? quem disse?, entre outras, assim, quase monossilábicas. E que no entanto, dependendo do momento em que são propostas, tornam-se incisivas a ponto de levar a insight(s). E daí ao reconhecimento da singularidade e da possibilidade de ser sujeito e não apenas estar sujeito à (civilização).
O homem dos ratos
Freud rebatiza Ernst Lanzer (EL) como "O homem dos ratos", para manter o nome do analisando no anonimato e poder contar seu relato (ao longo de nove meses, na clínica), divulgado ao mundo pelo psicanalista como exemplo de neurose obsessiva. Freud lida (toureia, luta em batalha) em meio a uma relação pai/filho, e se coloca na posição de educador amoroso, de pai disposto a escutar - conforme o psicanalista canadense Patrick Mahony, que pela primeira vez revelou o nome do "homem dos ratos" ao mundo, em 1986 (Roudinesco, E. e Plon, M., Dicionário de Psicanálise, Jorge Zahar Editor, 1998).
Freud, em nove meses, tempo improvável para uma análise bem-sucedida (e ela será), tenta reeducar EL, como um pai compreensivo em relação às confissões do filho? E o "reeducar" seria no sentido de recriar, ressignificar, já que o site é o lugar da criação? Pai-criação-filho e a denominação do homem anterior como "dos ratos". Freud, portanto, não desvincula o homem dos ratos e assim expõe sutilmente a situação de chegada de Lanzer à sua clínica.
Os ratos aparecem na história narrada por Lanzer como agentes punitivos (que entram no ânus do culpado/supliciado), por uma culpa relacionada a uma dívida. Freud interpreta o terror de Lanzer pelo castigo com os ratos como o horror ao gozo. Ao longo da narrativa, Lanzer conta como foi reprimido sexualmente, pelo pai, que o proibia de morder e masturbar-se (o erótico interditado), remetendo o gozo à morte.
A interdição civilizatória (em nome do pai e feita pelo próprio pai, neste caso) mais marcante é aquela referente à mastubarção, é a segunda interdição da expressão de desejo (agressividade liberada na mordida/prazer do gozo) sexual de Lanzer. Em sua história de vida, então, Lanzer se refugia em amores platônicos. A prima por quem se apaixona é pobre (o pai apaixona-se por uma mulher pobre, mas casa-se com uma rica), depois tem de extrair os ovários, portanto não poderá ter filhos. Se o gozo do ponto de vista judaico/cristão está exclusivamente para a procriação, Lanzer, um judeu-austríaco, com sua prima/esposa ovariectomizada, estaria privado disso.
Sua obsessão compulsiva por orações e métodos capturam a energia que poderia ser investida em desejo de vida e não no prazer com a morte – o gozo pela introdução dos ratos em seu ânus, tanto que delira com o não pagamento da dívida que tem para com o capitão, o que seria um motivo da cruel punição com os ratos. Seria, então, a civilização a morte do sujeito pela sobrevivência do conjunto, mesmo que este seja vazio, porque retira opções e não oferece outras? Como o "pai-educador" dará conta disso?
Lanzer transfere a Freud a posição de pai/capitão, agentes da culpa/castigo, o insulta em sonhos, quer ser castigado. Mas, na contratransferência, Freud não castiga. Esclarece, mostrando as próprias associações do analisando, possíveis a partir das interpretações (mesmo que não ditas) do analista. Assim, Freud oferece novas possibilidades de escolhas, de reinvenção de si mesmo. Ao final da análise, o homem dos ratos casa-se com a prima e torna-se advogado. Não torna-se nem "um grande homem" nem "um criminoso" (mesmo que de um homem só, ele próprio, pelo suicídio), como propunha seu pai, após o episódio das mordidas em alguém, quando tinha quatro anos. Também não permanece na posição em que chegou à clínica, como "homem dos ratos". Se recria como ser desejante e singular, e porque "é" pode relativizar para si o mal-estar na civilização (quando esta se sobrepõe ao sujeito, mais punitiva e castradora do que compreensiva e amorosa).
"Lacan conferiu um estatuto de mito à neurose obsessiva do Homem dos Ratos, mostrando que ela era o próprio modelo de estrutura complexa e da dilaceração originária pelas quais todo sujeito se liga a uma constelação simbólica cujos elementos se permutam e se repetem de geração em geração, como o memorial de uma história genealógica." (Roudinesco, E. e Plon, M., in: Dicionário de Psicanálise, Jorge Zahar Editor, 1998).

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